Um buraco com meu nome, de Jarid Arraes

Em seu livro de estreia na poesia, a escritora e cordelista Jarid Arraes dedica seus poemas àqueles que não encontram matilha. Àqueles que procuram um buraco para chamar de seu – talvez toca, talvez a cova íntima que nem sempre encontramos quando precisamos de abrigo. Nas quatro partes do livro – Selvageria, Fera, Corpo Aberto e Caverna – Jarid cava fundo, com unhas e presas, em busca desse lugar. Revira lembranças de sua infância no Cariri, cercada da intolerância e do machismo, mas também cercada da poesia dos homens que inspiraram seu pai e seu avô, ambos cordelistas, e a despertaram para o universo literário.
O que sempre faltou nessa época foi a voz de mulher, que ela se encarregou de resgatar em seus dois primeiros livros, “As lendas de Dandara” e “Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis”. Descobrir-se mulher e depois negra intensificou essa busca, levando Jarid a mergulhar na política de classe, de raça e de gênero em seus cordéis que subvertem a tradição nordestina.
Em “Um buraco com meu nome” – que também inaugura o selo literário Ferina, voltado à descoberta de autoras brasileiras – a política ganha contornos líricos, mas continua presente em cada verso.

 

LANÇAMENTO EM SÃO PAULO

18 DE AGOSTO, SÁBADO, 16H

LIVRARIA BLOOKS (SHOPPING FREI CANECA)

INFORMAÇÕES:

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Alguns poemas do livro:

 

UMA MULHER PERGUNTA

há tardes e pequenos espaços
de tempo
em que uma mulher pergunta

de que adianta

se as mãos dos homens
dirigem o metrô e os ônibus
os carros blindados
as motos que serpenteiam
entre corredores breves
se as mãos
dos homens
assinam os papéis e carimbam
autorizam o prontuário
a entrada e a saída do corpo
o reconhecimento dos órgãos
doados
se as mãos dos homens
orquestram as violências
balas esporros olhares
e tocam seus instrumentos
fálicos curtos enrugados
colocados para o lado
se os homens e suas
mãos
discam os números
estabelecem os valores
fazem listas de nomes
de outros homens
e se as as mãos dos
homens
alcançam todas as coisas
que quebram ou selam
acordos
e apertam botões
que começam guerras
internas
por muitas e muitas
gerações

há um dia em que a mulher
pergunta a si mesma
pergunta para outra
mulher
e as perguntas pairam
flutuam
sobre a cabeça
as perguntas incomodam
e vazam como excremento
de aves de árvores de céu

nesse dia a mulher procura
a resposta
por que de que adianta
se há mãos que fazem dançar
as cordas
e os pequenos membros
do corpo vivem em sacolejo
o ventre morre em liminares
gestações que formam mãos
de homens

e a partir do ventre
as mãos nutridas pela mulher
saem na direção do mundo
de tudo que é externo
de tudo que é global
antropológico
fágico
e social

e a mulher nesse dia pergunta
para outra mulher
para o espelho

de que isso tudo
adianta

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BEIRA

que mulher que
sou
me pergunto
espelhada

que mulher tem essa pele
desbotada

o que sou de mulher
com cabelos armados
e perigosos
que mulher periga
na linha encardida
da caixa parda

que mulher que sou
aos teus olhos
de mulher

sou repetição
diferença
ou sou resposta
quem sabe
ausência

que sou eu
mulher
misturada

entre cores
diluídas
e marcas
deixadas

não sei que mulher
é meu tipo
de ser
se sou como ela
como outra
se minhas raízes
se fazem entender

pergunto
no espelho
com o tubo
de creme

[pingaram três gotas
no tapete]

que mulher sou eu
mulher-quase
mulher-nem-tanto
mulher-um-pouco-demais
para não ser.

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FÁBULA

desistir é coragem difícil
somos programados
para tentar

deslizando aos barrancos
a pele das pernas
esfolada
os pulsos marcados
pelos rosários

é preferível morrer
sorrateiramente
em gorduras
açúcares
refluxos
pedras nos órgãos
no peito

mas desistir
essa é uma coragem
que todos
não temos

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